terça-feira, 26 de agosto de 2008
Agosto e as Férias...
É Agosto, e como coisa típica, é costume fazer férias. Habituamo-nos de pequeninos assim. E quando era pequenino, só alguns as podiam fazer. Passava um mês na praia da Aguda e até em Espinho. Era um ambiente fabuloso, reviam-se os velhos amigos dos anos anteriores, era como uma família que apenas se revia nesse mês. Eram frequentes as paixões, que mudavam de ano para ano, porque não resistiam a tanto tempo de saudade. E as várias gerações lá se reuniam, as famílias, e as mesmas coisas de sempre. E a minha bicicleta vermelha, que algumas vezes foi comigo, que aventuras... Eram os primeiros vouos de um passarinho não muito atrevido. De Aguda a Espinho, era uma aventura e tanto. Só a mudança de casa produzia uma excitação sem igual. Carregava-se a camioneta do tio Zé, de caixa aberta, com todo o tipo de tralha necessária para passar lá um mês inteirinho sem vir a casa. Era uma semana de preparação de tudo, que um esquecimento era trágico, mesmo que ela não ficasse e mais de uns oitenta quilómetros... Até tinha uma gancha, feita expressamente por um familiar afastado que dava uns jeitos de ferreiro, e que me permitia apanhar as santolas e caranguejos com que alimentava a família ao jantar, com uma refeição extraordinária de marisco, altamente condimentada pelo meu tio Toninho. Era o rei das possinhas onde com a minha rede pescava os pobres camarões, que curiosamente ficavam vermelhos quando cozinhados com os temperos do meu tio. Eram dias inteirinhos de praia, no início até ficar bem vermelhos, e depois, ao fim de um mês, com um bronze de verdadeiro profissional. Banhos naquele mar gelado e bravo, com ondas bem espumadas e com rochas bem perigosas, para não falar nos ouriços que muitas vezes cravavam os seus espinhos nos pés de forma brutal. Depois, já a tiritar de frio, com dores nos ouvidos, lá nos deitávamos sobre a toalha a apanhar sol o mais depressa possível. E melhor de tudo, aquelas batatas fritas caseiras, e salgadinhas, compradas aos vendedores ambulantes, ui que bom. Melhor, só a hora de almoço, naquelas barracas que tínhamos de montar e desmontar todos os dias. O farnel era o melhor do mundo, dando-nos uma felicidade sem igual. Se o dia corresse bem, poderíamos ter ainda direito a um gelado da Olá, alguns dos quais até davam um bonequinho de plástico para a colecção. E depois, os jogos com o prego, as caçadinhas, ou as corridas de ciclistas. Aqueles ciclistas eram a minha vida. Fazia-se um pista na areia de forma sofisticada, até túneis e montanhas tinham. Jogava-se uns dados e o nosso ciclista avançava, ou então jogava-se uma carica lançada entre o polegar e o indicador até doer, e onde a carica parasse, lá colocávamos o nosso ciclista. Para mim, aquele homenzinho em cima de uma pequenina bicicleta de corrida até tinha alma. Depois lá ia ver os mais velhos jogar o voleibol. E sonhávamos com o dia em que fossemos grandes como eles e fizéssemos um figuraço na praia para aquelas miúdas giríssimas, adolescentes dos anos sessenta. Até tenho saudades do velho Piruças, um cão podengo forte com um touro, o rei da praia, onde passeava livremente a sua imponência. E até era meu amigo, porque uma das casa de pescadores que alugamos era o seu lar de origem. Essa casas eram fabulosas, simples e bafientas, dando indícios de maus saneamentos. Mas eram mágicas, tão diferentes da minha. Mas acima de tudo eram as casas daqueles intrépidos, musculados e mágicos pescadores, que se aventuravam pelo mar dentro naqueles barcos grosseiros de madeira e a remos. Era vê-los em frente à Lota da Aguda a entrar pelo mar dentro, vencendo aquelas ondas assustadoras à força de remadas fortes e frenéticas, caso contrário: a desgraça. E o cheiro dela estava sempre presente. Quando mar se alterava com os homens lá dentro, vinham as mulheres vestidas de preto, mães, irmãs, avós, viúvas, todas, gritar gritos lancinantes de pânico e dor antecipada pelos homens que podiam não regressar, e quantas vezes não regressaram. Afinal, o mar que me proporcionava toda aquela alegria e magia também matava. Aquele cheiro a desgraça ainda hoje me está presente, e naquele tempo isso acontecia frequentemente, muito mais que hoje. Adorava as zaragatas entre as vareiras, metendo famílias inteiras, principalmente quando metia aqueles pescadores possantes, que com um único arremesso daqueles braços habituados a puxar os remos e as redes derrubavam todo o mulherio. E no entanto, esses brutos do mar eram capazes de ser meus amigos, o que me dava um orgulho sem limites, tal a minha admiração por eles. Eram a incarnação dos meus heróis. Tudo isso me fazia sentir especial. Não havia melhor espectáculo que a chegada dos barcos à praia, lançados a grande velocidade por sobre as ondas até à areia. Depois vinham os bois puxar aqueles brutos barcos carregados de redes e peixe. A agitação era intensa, azáfama por todo o lado, barulho, gritos, peixes moribundos por entre as redes sobre a areia. Os homens cansados, as mulheres a tomar o peixe para a venda na lota... Por isso tudo, adoro o Agosto, adoro o mar e adoro a praia, os pescadores, as vareiras, adoro os peixes e os barcos. Tudo isto, com grande saudade da minha infância.
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